
Ler A Tarde aos domingos é um ritual e é quase um pecado não cumpri-lo. E nos últimos tempos adoro na minha liturgia jornalística dominical ler o artigo de Caetano Veloso. Caetano consegue pensare col cuore e scrivere colla testa e por isso me encanta. O que mais gosto em seus artigos é a corajosa não-linearidade, algo impensável na quase sempre morna crônica brasileira. Vibro quando nosso poeta de Santo Amaro leva-me por um caminho que penso conhecer e, de repente, sem qualquer anúncio prévio, me dá uma rasteira e muda o rumo da prosa seguindo sua intuição. Ou quando ele dribla a sisudez do assunto principal e, rimbaudianamente
escreve silêncios, anota o inexprimível, fixa a vertigem. Em sua mão a pena, ou a tecla, é a língua da alma, como dizia Cervantes. Mas na crônica do último domingo, Caetano se superou e, ao falar sobre a cidade da Bahia, foi ao mesmo tempo razão e emoção, amor e desencanto. Denunciou o abandono do Pelourinho e do Porto da Barra, lembrou a questão do gabarito da orla e a retirada das barracas de praia feita sem planejamento e que em nada resultou. Mas, apesar disso, disse com todas as letras que tem “a irresponsável sensação que a Bahia ainda está viva aqui”. E falou do deleite de comer o acarajé de Cira à brisa da tarde no Largo da Mariquita, de ir à missa no Rosário dos Pretos, mesmo quando ela é celebrada na igreja do Carmo, e de ver o “mar azul-marinho cercando a cidade como um muro muito concreto e sobrenatural”. Caetano disse, poeticamente, o que os baianos, cheios de autoestima, estão a dizer: que têm orgulho de sua bela cidade, embora assistam à sua lenta degradação. Ítalo Calvino dizia que escrever é sempre esconder algo de modo a que mais tarde seja descoberto. O que essas palavras escondem, e acho que as de Caetano também, é a indignação, o desencanto e a decepção da população para com aqueles que não se mostram capazes de administrar a bela e encantadora cidade da Bahia. Mas não tem nada não, poeta, talvez desse desencanto nasça o novo.