Bahia Econômica.: O que significa a ideia de tratar a casa como se fosse uma empresa?
Rodrigo Leone: Eu começo as palestras com uma brincadeira de um amigo virtual que casou com uma menina e depois fica com problemas financeiros por ela ser consumista. Esse meu amigo vem até o meu escritório com a ideia de que a casa dele é como se fosse uma empresa, desde o fato de você ter que conhecer bem o seu sócio - no caso da família seu esposo ou sua esposa. Você tem que escolher bem esse seu sócio porque às vezes uma empresa não vai pra frente porque os sócios têm conflitos, não pensam da mesma forma, então a sua esposa ou o seu marido tem que ter pensamentos em conjunto. Desde fazer a boa escolha do “sócio”, até todos os requisitos para você se casar e abrir uma empresa, desde carimbos, testemunhas, cartório, são coisas comuns entre a vida empresarial e a vida pessoal. Se você for fazer um contrato da abertura de uma empresa, você tem cotas meio a meio, participação meio a meio, responsabilidade divididas como você vai ter no casamento, você não pode vender suas cotas, no caso você não pode trair seu marido. São coisas que você não pode fazer e que no contrato da empresa também não pode ser feito. Tem muita coisa parecida. Na empresa, você tem funcionários; em casa, tem empregada doméstica, custos, controle de gastos. Como numa empresa, você planeja comprar apartamento, planeja comprar carro, planeja previdência, etc. Você tem decisões financeiras que não são as mesmas, mas são parecidas. Existem decisões a longo prazo, tanto para investimento quanto para financiamento, como a curto prazo, questão de capital de giro por exemplo, versus você ter um controle de gastos da sua empresa. Fechar uma empresa, acabar um casamento, são coisas que você pode comparar. Não são exatamente os mesmos tópicos, mas se você quiser generalizar, em um mundo maior das finanças são coisas parecidas. Você chega na sua empresa e dá bastante atenção às finanças do seu negócio e em casa. Não dá atenção porque é um problema doméstico. Mas essa desatenção é tão maléfica às suas finanças como seria para a sua empresa. É por aí que começa. Por ser algo parecido, pode ser comparado e você precisar dar a mesma importância que você dá à sua empresa.
BE - Dentro desse raciocínio, como otimizar o salário?
RL: Eu dou exemplos de questões que eu recebo, que jornalistas me perguntam, alunos, clientes, falo mais detalhadamente em relação a gestão financeira pessoal, a esse controle financeiro relacionando com exemplos práticos. Isso porque a questão de como agir depende muito de quanto você ganha, de qual é o seu padrão de vida, do que você espera como padrão de vida mais pra frente. Portanto fica difícil você generalizar tudo em uma coisa só. Fatores como que idade você tem, quantos filhos. Tem um exemplo de um garoto de 20 anos e quer investir. Quando investir? Vale a pena aplicar em bolsa? Depende. O que esse garoto de 20 anos tem? Ele mora com os pais? Ele mora sozinho? É casado, tem filhos? Tem seguro saúde, tem previdência? Por isso você tem que saber muitas coisas antes de propor alguma solução, ações, decisões em busca desse objetivo financeiro. É claro que tem algumas coisas que são básicas. Otimizar salário significa você aumentar o salário. Mas se você ganha um valor fixo, a não ser que você seja, por exemplo, um consultor ou autônomo, mas se você for funcionário público, vai ganhar sempre a mesma coisa, ter um salário que não pode otimizar. Então você vai reduzir as suas despesas e, se não for possível reduzi-las, vai reduzir após priorizá-las. Se você tem dívidas, trocar uma dívida mais cara por uma mais barata. Isso é uma otimização de despesas financeiras. Mas reduzir despesas também significa ser menos consumista, se o que está onerando é aquilo que é variável. Se você tem que pagar um condomínio ou aluguel isso não é culpa sua. Se o seu filho tem um plano de saúde, não tem como você sair disso. Agora, se estiver comprando muita roupa, indo muito a restaurante, indo muito ao cinema, viajando demais, coisas que são consideradas supérfluas, podem ser cortadas. São importantes, porque tem muita coisa subjetiva nessa parte de finanças, mas o subjetivo leva em conta o custo/benefício. É claro que é um benefício viajar, ir a um restaurante, mas é a hora de cortar é o momento em que você está apertado.
BE - Como adequar as despesas correntes ao salário? É bom fazer um orçamento?
RL: É imprescindível fazer um orçamento. É impossível gerenciar alguma coisa que você não possa medir e medir significa ter esse orçamento, saber quanto você gasta, saber quanto ganha, o que tem. Portanto, é básico que se tenha um balanço patrimonial de pessoa física, como se tem balanço de pessoa jurídica. A fotografia do seu patrimônio mensal e como aquele mês aconteceu em termos de renda, em termos de despesas e gastos ou dos investimentos que você fez. O trabalho do consultor financeiro é te ajudar a chegar naquele objetivo que você traçou e para chegar lá eu vou te dizer como. Mas para te dizer como, eu tenho que saber como você está.
BE - O trabalho de consultoria familiar é mais voltado para pessoas de renda média e alta, mas você acredita que o orçamento familiar, essa redução de gastos e otimização de salário, pode beneficiar famílias mais pobres também?
RL: Você não tem que ser rico para controlar seus gastos. É claro que, para um consultor financeiro, é muito mais atrativo uma família rica. É como pegar como cliente uma grande e uma pequena empresa: as duas dão quase o mesmo trabalho, mas a grande empresa dá um lucro muito maior. Mais do que o padrão de vida, o controle das finanças pessoais é importante para o seu bem-estar. Você está com dívidas, tem um cara te cobrando e você vai trabalhar pensando naquele telefonema que você recebeu. Será que você rende igual? E isso não para só no seu padrão de vida. Você tem uma casa, contas fixas, filhos na escola e tem mais essa dívida. A partir daí o desempenho, a produtividade cai.
BE - Com relação às despesas fixas, como água, luz, telefone, qual o melhor caminho?
RL: Tem alguns sites na internet com listas sobre como você diminuir despesas de energia, economizar eletricidade, água. Isso todo mundo sabe, mas não faz por falta de hábito ou preguiça. Não deixar a torneira pingando, desligar o ar-condicionado e computador ao sair, economizar telefone migrando de um plano para o outro ou de uma operadora para a outra são alguns caminhos para economizar e reduzir despesas.
BE - Em relação ao supermercado, é melhor fazer compra mensal ou semanal?
RL - Comprar diariamente fica muito mais caro, mas ao mesmo tempo a compra mensal não é uma boa opção. O mais próximo do ideal seria uma compra de 15 em 15 dias. Até porque sua empregada doméstica vê um monte de coisas no armário e não tem noção se aquilo vai acabar. E se tem muito, ela vai usar mais. Se você compra 100 gramas de presunto, vai pegar de fatia em fatia, já se comprar 500g, vai pegar de três em três. O que é pouco sobra, já o que é muito, não. Outra dica também é, desde que haja qualidade, comprar os produtos em oferta. O ideal também é contar com a ajuda da empregada doméstica ou de quem faz o serviço da casa para a compra de produtos de limpeza, pois assim essa pessoa vai saber o que rende mais ou não. O mais indicado no supermercado é fazer as compras semanais ou quinzenais à vista quando você tem dívida, porque no caso você pode utilizar o dinheiro que usaria no mercado para pagar as suas dívidas, em vez de utilizar todo esse capital para pagar uma compra, por exemplo. São essas trocas que às vezes não percebemos, mas são fundamentais.
BE - No caso de sobrar algum recurso qual é o melhor investimento? Investir em poupança?
RL: Depende de quanto sobra, depende de quanto você já tem guardado. Eu acho que não vale à pena você entrar em renda variável, em Bolsa, com menos de R$ 20 mil. É se estressar, além do pagamento de algumas taxas de administração, corretagem, etc. Tem que avaliar o potencial, a taxa projetada de retorno versus os custos que você tem. A poupança é o investimento mais usado no país porque culturalmente o brasileiro seja investidor de poupança. Não faz sentido você investir em poupança, você pode colocar dinheiro no CDB, comprar alguns títulos de renda fixa, fundos conservadores que tem uma taxa de juros ainda elevada que, mesmo pagando imposto de renda, taxas de corretagem, vale mais à pena em termos de investimento e é quase tão seguro quanto. Por exemplo, o povo americano não investe em poupança, investe em ações. É claro que possui mais bagagem como investidor para isso, mas investimento em poupança não existe nos EUA. Mas também para investir em renda variável tem que ter o perfil de investidor em renda variável. Não adianta ter o mínimo, ter outros investimentos mais “seguros”, mais conservadores, para daí partir para algum investimento mais agressivo. Mas, para partir, você tem que ter, além do capital, esse perfil.
BE - Se a pessoa já está com dívidas, no cheque especial ou outras, qual o melhor caminho?
RL: Vamos supor que alguém queira ganhar um pouco mais do que ganha hoje, para poder viajar ou se aposentar. As suas ações são para que, futuramente, se tenha mais qualidade de vida. Para você que hoje quer deixar de ter dívidas, tem que pagar suas dívidas e, para isso, tem que ter sobra. Pode pagar suas dívidas renegociando as taxas, mas mesmo assim ainda vai ter dívidas. Essa sobra vem de três possibilidades: ou você tem alguma aplicação e tem que tirar da aplicação para quitar as dívidas, o que vai de encontro ao seu objetivo maior, que é fazer essa aplicação que gere rendimentos no futuro para você ter uma vida melhor. Mas é o que você tem na mão naquele momento, é melhor você se desfazer agora e quitar o que deve. Se não tem aplicação, tem que aumentar sua sobra, que significa ou aumentar seu salário ou diminuir suas despesas. Aumentar seu salário é fazer um “bico”. Se puder, a tua mulher vai trabalhar também, mudar de emprego, cozinhar para fora, isso tudo que o brasileiro sabe fazer. E a outra alternativa seria reduzir as despesas, cortar o que é supérfluo.
BE - O que você recomenda como principal item para otimizar as finanças? No caso de saldar dívidas ou fazer aquisições é melhor que sejam feitas a prazo ou à vista?
RL: Por exemplo, na aquisição de uma TV LCD de R$ 3 mil, você pagaria como? O valor à vista ou R$ 3 mil em 10 vezes de R$ 300? Se for assim, sem juros, é claro que vale mais à pena parcelar, mas no caso tem um desconto à vista. Três mil reais à vista fica R$ 2.800, R$ 2.500, contra 10 parcelas de R$ 300. Você tem que fazer a comparação de quanto tem de juros embutidos nessa operação tida como “sem juros”. A avaliação de pagar a prazo ou pagar à vista é da atratividade do financiamento ou não versus o que você tem. Só vale à pena pagar a prazo se o custo do financiamento for menor do que o rendimento que se tem nas aplicações. Porque aí você vai pegar o dinheiro que iria pagar à vista e põe no banco. No banco, vai render o suficiente para quitar aquelas parcelas e sobrar um pouco no fim do mês, porque o dinheiro rende mais do que custa o financiamento. É um movimento de comparação de taxas, quase tudo é comparação de taxas.
BE - É possível viver com um salário mínimo no Brasil sem se endividar?
RL: Eu não sei as pessoas que ganham um salário mínimo e só um salário mínimo tem tantas dívidas assim. Acho que quando se ganha um pouco mais de dinheiro, aí sim você começa a se endividar, você começa a querer um pouco mais. Eu não tenho um estudo aprofundado na parte de salário mínimo, mas acredito que essas pessoas de uma forma ou de outra estão vivendo um pouco melhor do que viviam antes porque realmente o mínimo aumentou. Eu acho que esse indivíduo que ganha um salário mínimo não tenha tantas dívidas, mas também é bastante limitado, tem que ter muito jogo de cintura. Eu acho impossível viver assim. Se fosse eu, não conseguiria. O brasileiro que ganha um salário mínimo está em dívida, ele pode comprometer a renda toda dele, mas só vai conseguir as coisas com dívidas.
BE - Em termos de finanças pessoais o Brasil está melhor em relação a outros países? É um país semelhante a quais países em relação ao aumento de renda e gastos?
RL: O brasileiro é um povo que costuma se endividar mais, mas já está melhor devido ao seu posicionamento por causa da crise financeira. Nós somos um povo que não sabe lidar com as finanças como os estrangeiros sabem, de uma maneira geral. Coitado do pessoal lá fora que não imaginava que tinha alguém fazendo uma pirâmide com o dinheiro deles. Quem tinha ações da GM, da Chevrolet, perdeu muito. Eles também não acompanham o mercado, não são analistas. As pessoas idosas, por exemplo, muitas vezes colocam seu dinheiro na bolsa por uma questão cultural deles, mas aplicam confiando no gestor e deram azar porque eles não foram capazes de prever o que aparentemente estava na cara.
BE - Você acha que o Bolsa Família é uma forma de viabilizar as finanças pessoais da população mais pobre?
RL: Você não deve dar o peixe, você deve ensinar a pescar. É uma proposta do economista Yunus, fundador do Grameen Bank, banco dos pobres, em que você deve dar o dinheiro, cobrar alguma coisa, mas acompanhar o uso desse dinheiro. Ele dá o dinheiro, normalmente para mulheres, e acompanha o que elas fazem com esse dinheiro. O caso do Bolsa Família é um programa mais assistencialista, que pretende muito mais remediar do que capacitar. A longo prazo, eu sou contra. Claro que no curto prazo essas pessoas precisam de algum auxílio para viver, mas acho que o Bolsa Família deveria ser um programa mais voltado para o futuro dessas pessoas.